É um domingo frio e com neve. Ela caminha sem rumo. As botas longas que vão até os joelhos, o casaco de lã comprado pela mãe, a saia dada pelas tias paternas e uma meia calça grossa. Todo esse conjunto especialmente escolhido para protege-la do frio e ao mesmo tempo dar-lhe certo estilo, delicadeza. As luvas dão o último toque especial.
É o mesmo domingo frio e com neve. Ele passou a noite inteira acordado na casa de alguns amigos. A festa durou até agora. Ainda está bêbado e com dor de cabeça. As roupas, até ontem a noite, eram bonitas. Agora ele só veste um moletom azul e preto, usa um pé de cada tênis,um é dele, o outro ele não tem idéia de quem seja. A calça Jeans está suja de bebida derramada sobre ele e vômito de garotas bêbadas, que ele e os amigos chamam de "vadias fracas". Essas meninas que querem ser descoladas, beber e ter vários namorados em uma só noite. Ele aproveita. É viciado em romances repentinos, desses que duram apenas algumas horas.
Dá uma última checada no celular, mais alguns números, mais algumas meninas esperançosas. Ele nunca vai ligar para elas. Não depois de ter conseguido o que queria. Distraído, ele caminha, sem saber, em direção ao parque. O sorriso aumenta a cada nome novo adicionado à sua lista de contatos. (Essa era loira, mas os pêlos eram bem pretinhos. Essa tinha belos olhos e se movimentava como uma puta). Cada detalhe da noite passada só trazia mais divertimento.
Ela para em uma cafeteria e pede um chocolate quente. Não imaginou que estaria tão frio assim. Paga ao moço do caixa, que sorri com malicia. Ela é dona de traços delicados e bem vistos por qualquer um. O problema é a mentalidade infantil. A pouca maturidade dela a impede de ter relacionamentos ou qualquer contato físico com alguém. O motivo dessa caminhada matinal solitária era exatamente esse. Ontem ela havia recebido uma declaração de um amigo muito querido e muito próximo. Todos diziam a ela sobre a paixão do rapaz, embora ela nunca tenha notado e sempre negava esse tipo de comentário absurdo. (É claro que ele não gosta de mim, vocês estão vendo coisas aonde não tem!). Mas ontem tudo mudou. Ele tinha se confessado e pior de tudo, ele acabou ficando irritado com ela. Disse coisas horríveis sobre ela ser uma idiota e sobre as coisas que ela fazia. Insultou o modo que a menina agia e a xingou de "falsa santa". Falou sobre a máscara que ela usava. Explodiu com ela e em cima dela. A menina não conseguia entender o motivo daquilo. Era pra ter sido bonito.
Para completar a cena, ela ficou com medo daquilo e saiu correndo. Deixando ele sozinho, em frente a um pátio todo. Já longe, ela ainda podia ouvir os gritos de raiva.
Naquele dia voltou pra casa chorando, amaldiçoando qualquer coisa. Trancou-se no quarto e não saiu mais. A mãe, que sempre ficava em cima dela e colocava a filha em uma bola de cristal, para que essa não conhecesse os perigos do mundo, chamou médicos. Entretanto, a porta do quarto não se abriu. Os médicos bateram, a mãe implorou, mas a garota não saiu do quarto. Só queria ficar sozinha. Ela e seus próprios pensamentos. Contudo, naquela casa ela não teve um segundo de paz. Por isso tomou a decisão de sair.
Já tinha tomado metade do chocolate quente, quando terminou de repassar a cena do dia anterior. Tudo aquilo doía muito e as lágrimas relutavam em cair. Por um tempo, chorou baixinho.
Enquanto ria de algumas de suas peripécias da noite passada, o garoto continuava a andar, sem saber exatamente pra onde. Quando percebeu, estava em frente de uma garota sentada no banco. Ela estava cabisbaixa, mas, pela cor do cabelo e das roupas, logo descobriu quem era.
▬ HAHAHAHAHAHAHAHA,NÃO FOI VOCÊ QUEM DEU UM FORA NO TAKESHI ONTEM? HAHAHAHAHAHAHA
Ele ria sem parar, aquela cena tinha sido realmente engraçada.
Ela levantou a cabeça apenas para ver quem falava com ela. Por mais raiva que estivesse sentindo naquele momento, seu coração bateu forte. Era Ryuji, o garoto mais popular e nojento da escola. Ela sabia de sua fama e de tudo o que ele já havia aprontado. E mesmo assim, alguma coisa lá no fundo batia mais forte.
▬ E-E-EU NÃO DEI UM FORA EM NINGUÉM! - Gritou desesperada, levantando de súbito do banco e apontando o dedo indicador para ele.
▬ Se aquilo não foi um fora, foi o quê? - Ele parou de rir, e sorrindo, ia de encontro a ela.
▬ B-b-bem.. E-eu não sei o que foi! Mas não foi um fora. - Ela abaixou a cabeça antes mesmo de terminar o que estava dizendo.
▬ Ná... Acontece, gatinha. - Ele se aproximou dela, de modo que a cabeça da garota já encostava em seu peito.
▬ HOOOOOMF~ Não me chame de gatinha! - Empurrou-o pra longe. Sua cara se fechou. Ela estava extremamente irritada com os comentários maldosos do rapaz e mais irritada ainda com a sua aproximação repentina.
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